Achei esse texto no meio de um monte de papéis durante minha limpeza de fim de ano, não achava que tinha tanto livro! Então, decidi inaugurar a área #Coringa, que será apenas de posts aleatórios, daqueles que dá na telha de postar.
Venho há dias pensando em como começar minhas memórias, já que completo hoje sessenta anos.
As pessoas sempre dizem: comece do começo, mas qual é o começo de nossa história? Bem, para mim foi na adolescência, quando cortei meus laços, ainda cheia de dúvidas e fiz minhas primeiras escolhas. Não pense que sempre soube o que seria de minha vida. Nunca tive certeza e ainda hoje, com meus sessenta anos, não sei o que sou. Mas sei o que fui e vou lhe contar.
Estávamos tremendo de frio, com farinha até os ouvidos e a tinta verde endurecia nossos cabelos. Éramos quatro jovens esperançosas com o mundo, em nosso último dia de colégio.
Após o sinal tocar, saímos correndo para fora da escola, mas não demorou dois minutos para voltarmos. A insegurança nos pegara. Quem éramos? Para onde iríamos? Nenhuma de nós sabia quem realmente era e para onde iria. As pessoas tinham suas teorias, mas nós, não.
Veio o primeiro balde de tinta na quadra de esportes. Era hora de parar com as perguntas e aproveitar os últimos momentos. Em seguida, vieram bexigas com água e pacotes de farinha de todos os lados. A quadra virou uma pequena guerra de pessoas choranas e sorridentes. Quando a inspetora chegou para uma bronca, todos fugiram para as ruas.
A ideia de sustentabilidade ainda estava se formando na mente dos cidadãos, mas não era preciso cientistas dizerem o que estava acontecendo. Naquela pequena cidade onde cresci, as pessoas viam claramente. A ação do homem degrada seu próprio habitat.
Naquele dia eu terminei o colegial e a população saía nas ruas, pediam uma atitude de seus representantes.
O rio que cortava a cidade estava totalmente morto, por conta do esgoto. Os comerciantes locais estavam perdendo clientes. O parque aquático, cartão de visitas, teve uma queda em suas visitas. Pequenos agricultores não podiam usar a água para a irrigação e para o gado. O odor insuportável invadia as casas.
Motivadas, entramos no movimento. Não sabíamos quem nós éramos, porém sabíamos o que pedir. Nosso desejo era um mundo onde fosse possível se viver.
O resultado está nesta foto em frente à delegacia, logo após nossa saída. Foi uma bela sexta-feira de lua cheia aquela, assim como tantas outras que vieram a seguir.
Tainá Fabro


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